Campo de Flores

Discutir a invisibilidade da mulher madura na sociedade brasileira é o foco deste trabalho individual da fotógrafa Silvana Garzaro.

Muito triste após o término de um longo relacionamento, descobri, aos quarenta anos, que a vida não brilhava tanto como antes. A solidão me incomodava. O trabalho como fotógrafa de coluna do jornal O Estado de São Paulo não me fazia exatamente uma pessoa recolhida, mas eu me sentia apagada.

Quando aos quarenta e um anos, conversando em um evento com uma amiga da mesma idade sobre a minha solidão e falta de oportunidades, me veio uma senhora de setenta e poucos anos e disse: “Minha filha, eu estou ouvindo sua conversa, quantos anos tem?” E ao dizer que tinha quarenta e um ela falou: “Prepare-se para ficar invisível”. E foi embora.

Aquilo teve um efeito de paulada na nuca. Senti-me envelhecendo, passei uma noite inteira a relembrar as palavras daquela senhora. Porém ao amanhecer a luz do sol me trouxe esperança e a vontade de mudar algo dentro de mim: me valorizar!

Foi então que tirei a roupa, coloquei a câmera no tripé e comecei a me fotografar.

Na manhã do dia seguinte, eu abri aleatoriamente o livro Nova Reunião, do poeta Carlos Drummond de Andrade, e comecei a ler um poema que relata um amor maduro, de penumbra, e termina dizendo:

“E estou vivo na luz que baixa e me confunde”.

Numa conexão com o autorretrato que havia feito naquela manhã, o poema e os versos se encaixavam perfeitamente com a luz da fotografia, e esta é a luz que venho seguindo em cada imagem que registro.

Nascia ali o meu projeto fotográfico Campo de Flores.

Silvana Garzaro